Não é preciso ter vivido no Nordeste entre as décadas de 1930 e 1990 para entender o profundo contexto de fé em torno do nome de Frei Damião. Ainda hoje, há quem recorde o poder curativo alcançado por meio da batina do religioso – da qual muitos fiéis tentavam conseguir um pedaço. A um passo de ter concluída sua canonização, o Frei terá sua história e santidade – metafórica ou não – contada no longa-metragem “Frei Damião – o santo do Nordeste”, dirigido pela cineasta pernambucana Deby Brennand. 

O documentário será
exibido pela primeira vez durante o festival Cine PE, no Recife, no
próximo dia 29 de julho. “Aqui para os nordestinos, Frei Damião é um
mito cujas histórias todo mundo conhece. No Brasil inteiro, porém, pouco
se sabe sobre o lado humano; o homem”, comenta a diretora. De acordo
com ela, o enfoque do filme está na vontade em descobrir “o que acontece
para transformar um homem em santo”, premissa conduzida pela
curiosidade dela própria, que buscou trazer para as telas detalhes sobre
Damião antes do histórico de sensitividade e fé que deram ao frade uma
reputação milagrosa.

A  capital pernambucana, onde o Frei capuchinho radicou-se brasileiro, também recebe um intenso fluxo de peregrinação que visita o túmulo do religioso, falecido em 1997. No primeiro dia de seu velório, em junho daquele ano, foram atraídas à cidade cerca de 40 mil pessoas. Uma notícia publicada na época pelo jornal Folha de Pernambuco afirma que “pelo menos dez pessoas desmaiaram” na ocasião. A informação endossa o laço do povo nordestino com o Frei.

“O dom da escuta
sempre foi algo que se destacou na vida dele, pois além das confissões,
ele ouvia as dores e as alegrias de quem fosse até ele. Isso foi
fundamental para o laço de amor e de carinho que o povo desenvolveu. É
uma retribuição” destaca Frei Jociel, postulador da canonização de Frei
Damião e consultor de conteúdo da obra.

Passados 12 anos desde a morte do religioso, as novas
gerações ainda testemunham a santidade do capuchinho, sobretudo por
meio das histórias que ultrapassam os limites do tempo. “A esperança é
de que o filme seja acolhido inclusive por um público mais jovem, pelas
pessoas que não conviveram com ele. Muito além do âmbito religioso, as
pessoas que forem ao cinema para ver essa história vão se deparar com um
homem que doou mais de seis décadas de sua vida por uma causa e isso é
algo muito forte, muito bonito de ver”, completa Maciel.

Imagens raras e milagres testemunhados

Produzido entre 2016 e 2018, o longa Frei
Damião – o santo do Nordeste reúne imagens inéditas, entrevistas,
depoimentos e testemunhos de milagres. Entre as imagens, há o material
coletado pelo parceiro do capuchinho, Frei Fernando. “É normal entre os
Franciscanos – ordem a qual ele pertencia – que se formem duplas. Frei
Fernando, que era muito próximo de Damião, era apaixonado por cinema e
filmava tudo que via. Essas filmagens mostram uma visão íntima e
cotidiana do religioso que trouxemos para o filme”, comenta a diretora
Deby Brennand. 

A narrativa, que mostra a vida do religioso
desde sua infância, mistura imagens e relatos reais com dramatizações da
juventude do franciscano. A montagem conta com imagens feitas na
Itália, terra natal do religioso. Foi no país europeu que familiares e
biógrafos afirmam ter sido o local em que ele teria recebido o chamado
de Deus, aos 13 anos. Há ainda gravações nos estados de Pernambuco,
Paraíba, Alagoas, Bahia e Ceará, pontos importantes percorridos durante
as Santas Missões. Devoto e crente de sua santidade, o cantor cearense
Fagner é um dos destaques do documentário, com um depoimento sobre a
personalidade do capuchinho. 

Reverência dentro e fora das telonas

Católica praticante, Nicélia Candeia já fez promessas para Frei Damião

Devota do religioso desde a infância, a olindense Nicélia Candeia diz
que a fé no frade capuchinho é uma herança familiar. “Minha mãe teve
mais contato com a pessoa que Frei Damião foi em vida. Ela já acreditava
que ele era santo, mesmo naquela época. Agora o vaticano só confirma o
que a gente já sabia há muito tempo”, comenta.

Nicélia diz que recorre às santidades, entre as quais
Frei Damião, nos momentos mais difíceis. “O importante é a gente ter
muita fé. Eu já fiz promessas para ele e tive graças alcançadas.
Acredito tanto quanto minha mãe acreditou”, diz. Professora
aposentada, ela contou com ajuda divina na busca pela primeiro emprego,
ainda na adolescência. Mais tarde, recorda ter recebido a intercessão do
santo na cura de um câncer de mama. “Eu pedi que ele me olhasse,
intercedesse. Passei pelo tratamento com muita tranquilidade, nunca
faltou remédios, nunca tive complicações”.

Atenção aos mais pobres e evangelização 

Nascido em Bozzano, na Itália, Frei Damião – ou Pio
Gianotti, como batizado, iniciou a vida religiosa aos 13 anos. Foi no
Nordeste brasileiro, porém, onde o desenvolveu seu trabalho de vida, as
Santas Missões. Durante 66 anos, o frade capuchinho – ligado à ordem dos
Franciscanos – viajou por diferentes estados num trabalho de
evangelização e assistência aos mais pobres. Assim, o frei desenvolveu
um forte laço com o povo dessa região. 

Frei Damião morreu no Recife, aos 98 anos, vítima de um derrame cerebral. Este ano, foi considerado Venerável pelo Vaticano. O título é imediatamente anterior à canonização. Para alcançar o nome de santo, é preciso ainda a comprovação de mais um milagre realizado pelo capuchinho, totalizando três. Os milagres são mantidos em sigilo, conforme pede a Igreja Católica. 

Por iG Gente Por Nathallia Fonseca

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