Desde que ouvi as primeiras notícias sobre a covid-19 em meados de março de 2020, eu sempre busquei me proteger o máximo possível com todos os cuidados que foram sendo recomendados, desde a utilização de máscaras, uso do álcool em gel, respeitando sobretudo as regras do isolamento social, inclusive cheguei a ser taxada por alguns como paranoica por tantos cuidados preventivos. Todavia, eu sempre tive a preocupação e consciência dos riscos que a covid-19 poderia causar em pessoas da minha família e do meu círculo de convivência, sendo elas parte do chamado grupo de risco, com quadro de diabetes, cardiopatias, hipertensão, obesidade, doenças crônicas, e idade avançada. Pois bem, independente dos cuidados, o fato é que o vírus permanece entre nós e fazendo cada vez mais estrago, ceifando cada vez mais vidas, se tornando cada vez mais resistente, e apresentando sintomas e sequelas inimagináveis… E QUEM DIRIA QUE EU TAMBÉM FARIA PARTE DESSA EXPERIÊNCIA DO CAOS, SAINDO DO CÉU PARA IR ATÉ O INFERNO TENTANDO ENCONTRAR A VIDA. 

A minha viagem começou justamente no dia de natal quando apresentei logo cedo um maior desconforto respiratório que eu já vinha sentindo dias antes, e que para mim era apenas uma crise de rinite alérgica. Eu nem imaginava o que ainda estava por vir, mas o trajeto pelo renascimento na época em que de fato simboliza o nascimento do Cristo, me custaria um preço muito alto, e eu estava só começando o percurso. Já nas primeiras horas da manhã de natal passei no hospital de campanha, e após o atendimento médico voltei para casa sob orientação e prescrição de medicação, contudo um cansaço inexplicável se agigantou nos meus pulmões de uma maneira tão rápida, que em poucas horas durante o período da tarde a minha voz começou a perder a força mesmo eu tendo recorrido a inalação na tentativa de melhorar a oxigenação pulmonar. Falar e respirar ao mesmo tempo já não estava quase mais sendo possível, e tudo foi de uma forma tão rápida, que eu não conseguia explicar como tudo estava acontecendo progressivamente, a sensação era de como se um maremoto de repente tivesse chegado e invadido todo o meu pulmão, derrubando tudo pela frente, e eu cada vez mais ficando sem oxigênio. Nesse momento em contato com alguns amigos e familiares, os anjos humanos começaram a fazer seus feitos natalino, Elivam, esposo de minha prima Sandra veio rapidamente ao meu socorro para me transportar até a UPA porque minha situação estava se agravando ligeiramente. O meu amigo e irmão de Alma Flávio Melo acionou o amigo Nivaldo Santino que também acionou um amigo médico, e que os orientou a me enviar com urgência a unidade de pronto atendimento. E sei que não foi por mero acaso que Dr. Sidney Ribeiro, justamente naquela tarde de natal estava de plantão na UPA de Bezerros, pois seu diagnóstico experiente de quem está na linha de frente da covid-19 foram fundamentais no meu atendimento. Já não lembro mais como foi o trajeto da minha casa até lá, pois tudo o que eu buscava desesperadamente era respirar. Minha irmã Leyde chegou na sequência, imediatamente fui atendida por Dr. Sidney, apresentando uma queda do estado geral, saturação muito baixa, falta de ar muito grande, e tão logo dois anjos da enfermagem lá fizeram os procedimentos para minha remoção. Mais uma vez o espírito natalino estava agindo, e para minha sorte uma única vaga no hospital Jesus Pequenino havia ficado disponibilizada, sem que eu precisasse ser transferida para a capital ou para um hospital de alguma outra cidade. Minha chegada ao hospital parecia uma eternidade, lembro-me que fui sentada na ambulância pois já não conseguia deitar por causa das dores no peito,  já fazendo uso do cateter nasal que conduzia o oxigênio até os meus pulmões. Ao passar em frente a um estabelecimento comercial recordo também que vi muitas pessoas sem máscara bebendo, e naquele momento rapidamente pensei: tive tanto cuidado e estou aqui agora lutando para sobreviver, quando tanta gente não está nem aí para a vida. Mas, aquele dia de natal era apenas o primeiro capitulo de alguns dias infernais que eu ainda teria pela frente. Não sei exatamente expressar em palavras o sofrimento e agonia daquela noite, meu quadro sequente ao dar entrada no Jesus Pequenino apresentou febre, tosse, dispneia e muita, mas muita falta de ar, dor pulmonar e uma dor de cabeça que parecia que iria estourar meus glóbulos oculares dentro do meu cérebro. Afora isso, quando fui colocada em uma cama para os procedimentos de atendimento necessários, eu não consigo esquecer daquelas luzes que pareciam refletores no teto, e eu fitava meu olhar naquela direção, quase sem poder respirar, com tanta dor e falta de ar, com os olhos vidrados, deitada numa cama rodeada de anjos. Anjos! Foi assim, como vi toda a equipe que tive contato naquele hospital desde aquela noite de natal quando ali pisei. A sequência das horas só pioraram minhas dores, e uma infinidade de medicação começou a ser administrada mediante meu quadro de infecção, com intensificação da oxigenoterapia suplementar com cateter nasal, antibioticoterapia, e uma preocupação da equipe médica em me estabilizar, inclusive se preocuparam  em me perguntar se eu tomava outra medicação para cefaleia, já que minha dor de cabeça não estava conseguindo ser controlada, e nesse momento eu já chegava a imaginar que não iria conseguir resistir a um grau de tanta dor, pois alguns medicamentos já não estavam conseguindo cumprir seu efeito analgésico. Enquanto isso, soube depois que a noticia do meu internamento se espalhou e muitos amigos e conhecidos começaram a se solidarizar com minha família colocando-se a disposição para ajudar. Mas, apesar daquele caos de tanto sofrimento, dor, falta de ar, eu consegui observar coisas incríveis lá dentro já a partir daquela noite. Mesmo sufocada em dor minha mente agitada não parava de refletir sobre a vida e a morte, não parava de observar a movimentação, a estrutura do local, os profissionais no ritmo acelerado para cuidar de mim e de outros pacientes. Me invadiu uma vontade louca de escrever e falar ao mundo o que se passa dentro de um setor de tratamento da covid-19. Meu primeiro aprendizado foi de fato entender o que era EMPATIA, quando eu achava que já sabia. Meu Deus! Assim como eu, outras pessoas estavam lá passando pelo mesmo sofrimento, uns mais jovens, outros mais idosos, uns na UTI, outros entubados, e como as pessoas que trabalham lá na linha de frente da covid-19 são tão humanas! Ninguém, ninguém exatamente, vai saber do que eu estou falando, sem ter estado lá. Por mais que eu use os mais belos adjetivos eu jamais vou conseguir expressar o que a gente, ou melhor, quem a gente encontra lutando por a vida da gente numa ala da covid-19. Aquela dedicação era realmente o Natal pois havia doação incondicional. Todos, sem exceção, tinham amor no olhar, desde o auxiliar de limpeza até os médicos plantonistas, eles nos olham com ternura, como se quisessem nos colocar no colo e curar nossa dor, e a nossa vitória é um troféu para cada um deles. Todos nos tocavam como se tivessem tocando plumas, com um imenso cuidado para não nos causar mais dores. Eu confesso que isso me deixou sedada por vezes, e sentir a preocupação de cada funcionário que deixava ou iniciava o plantão, perguntando como eu estava, tentando nos confortar com uma palavra, dizendo que em breve a gente voltaria para nossas famílias, fazia o meu coração ter esperança, e eu querer viver conseguindo respirar normalmente outra vez. Possa ser que alguns desses anjos quebraram o protocolo por conversarem com os pacientes, mas o que seria mais humano naquele local do que a compaixão de ajudar o outro com uma palavra de conforto? As horas lá parecem não passar, ficamos sem noção do tempo, sem saber ao certo se é dia ou noite, mas o cuidado 24hs com cada paciente é mantido com muita atenção. Eu inicialmente buscava reconhecer um olhar conhecido, pois em baixo de tantos equipamentos de proteção, luvas, máscaras, a única coisa que se evidenciava era o olhar. Aos poucos fui me familiarizando com as vozes e os olhares, e assim eu fui compondo a identificação que eu tinha de cada profissional que chegava no meu quarto. Aprendi o nome de alguns por ouvir outros os chamando, mas a equipe é tão grande que me admirei com tanta gente trabalhando na ala da covid-19, são tantos protocolos de limpeza, de cuidados, tratamento, plantões, um processo totalmente diferente de tudo o que eu já havia tido conhecimento sobre a rotina de um hospital. Tudo esterilizado várias vezes ao dia, a ala é toda isolada das demais dependências do Hospital, toda a alimentação em embalagens descartáveis e embaladas individualmente para não proliferar nenhuma contaminação. Reavaliei minha opinião sobre o Sistema único de Saúde, e fiquei fascinada com a responsabilidade e aplicação dos recursos do SUS no combate a covid-19, modelo esse de sistema de saúde que é exemplo no mundo, e que apesar de ainda termos muita deficiência e carência na saúde pública, somos ao mesmo tempo privilegiados. Relatando assim, alguém pode querer dizer que estou querendo puxar o saco de alguma instituição médica ou fazer propaganda, mas oras! O que eu ganharia com isso? Eu estou relatando a minha experiencia, o que vi, o que analisei, o que vivi na pele, e diga-se de passagem também, que não tive privilégios porque não  paguei nada além dos meus impostos, como todo brasileiro faz, pois para começar, se não houvesse o SUS eu não teria tido capital para custear um internamento particular, e provavelmente não estivesse aqui para contar a minha história de sobrevivência. Porém, eu não poderia deixar de explanar a minha opinião e respeito pela equipe que lidou comigo desde o hospital de Campanha, o atendimento na UPA, por todos os profissionais da saúde, de limpeza e administrativos, e pela instituição Jesus Pequenino. Eu posso afirmar que venci a covid-19, mas não pensem que foi fácil, como uma história bonitinha, como consta nesse relato, foi mais além dos que alguns detalhes aqui descritos, detalhes esses que mostram que não somos nada além de um corpo que pode desfalecer a qualquer momento. Foram noites em claros, muitos enxames, injeções, soros, antibióticos, acessos perdidos, dores, algumas noites precisando do auxílio dos anjos para me levarem ao banheiro, noutras precisando do auxílio de um anjo Thor, chamado Wanderson, que carregava um cilindro de oxigênio de aproximadamente 250 kg até o banheiro e assim pudesse me possibilitar chegar até lá respirando, e ele sempre fazendo tudo com a maior satisfação e paciência, assim como toda aquela equipe que convivi durante esses 9 dias, e que me ensinaram muito sobre humanidade, compaixão e empatia. Pessoas que amam seu exercício, que estão se arriscando para salvar outras vidas, deixando suas pessoas em casa para cuidar daquelas que se encontram em um setor da covid-19. Passei o natal e o réveillon de 2020 no hospital numa guerra contra a covid-19, acredito que morri naquele ano juntamente com velhos hábitos e antigos conceitos meus, mas renasci como um milagre de natal porque voltei pra casa em 2021 com a chance de respirar novamente. Pouco mais de 48 horas após minha alta ainda estou me sentindo muito cansada, debilitada, ainda estou sentindo dores, desconforto respiratório, minhas narinas estão feridas devido ao ressecamento provocado pelo oxigênio, inclusive chegam a sangrar, mas sei que esse é o processo natural de quem passou pelo que passei, e a reabilitação daqui para frente é um pouco lenta, tendo em vista o comprometimento pulmonar que também me ocorreu, mas que foi tratado e que permanece sendo observado. Enquanto estive lá dentro, soube que aqui fora houveram corrente de orações dos amigos, conhecidos, familiares, e até de pessoas que nem conheço. Fiquei sem acesso as notícias, ao celular, sem o contato familiar, mas só em pensar na existência deles me dava forças para lutar e resistir, porque a família é fundamental, é o cobertor do nosso coração quando ele se encontra enfraquecido. Tenho certeza de que espiritualmente nunca estive só, porque todos estavam comigo em pensamento e vibração, e se Deus me trouxe de volta a esse novo ano é porque ele quer de fato que eu continue a RESPIRAR, com mais gratidão, com mais empatia, e valorizando ainda mais a vida.

(Mariana Helena de Jesus) 

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