Um dia após a divulgação da programação do Festival de Inverno de Garanhuns (que nesta 28ª edição tem como tema aliberdade), o prefeito da cidade, Izaías Régis, procurou o secretário de estadual de Cultura, Marcelino Granja, para pedir que retirasse da programação a peça teatral “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”.

Diante da afirmação de que não haveria modificações, Régis declarou que não irá ceder o Centro Cultural de Garanhuns para a apresentação do espetáculo. Em seguida, foi à imprensa para defender sua posição, alegando que Garanhuns “é uma cidade cristã” e que a peça seria ofensiva a grupos religiosos. A confusão alcançou as redes sociais, dividindo opiniões.

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A peça é estrelada pela atriz transexual Renata Carvalho, que faz uma releitura de Jesus como se ele vivesse nos dias atuais como uma travesti. “A ideia é mostrar que Jesus pode estar presente entre os marginalizados. O texto é respeitoso e em nenhum momento vilipendia a liturgia cristã. Partir para a censura prévia é um ato de misoginia e transfobia“, critica Rodrigo Dourado, que é professor de Teatro na UFPE e diretor do grupo Teatro de Fronteira (que também vai levar “Luzir é Negro”, um espetáculo sobre racismo, para o FIG). Rodrigo organizou um abaixo-assinado virtual no site Avaaz, em defesa da peça de Renata Carvalho. 

O espetáculo estreou em 2016 e vem enfrentando oposição em várias cidades por onde passou. Em Porto Alegre e em Salvador, por exemplo, foi alvo de ações na Justiça pedindo (sem sucesso) o seu cancelamento. Em Jundiaí (SP), a apresentação foi suspensa por ordem judicial. Já no Rio de Janeiro, o prefeito e pastor Marcelo Crivella cancelou uma apresentação, mandando fechar o espaço teatral onde iria acontecer.

“Antes do advento de Crivella, a gente podia citar o Rio como um farol para o restante do Brasil. Não podemos deixar que Pernambuco passe por uma vergonha semelhante, esquecendo nossa tradição libertária”, acrescentou Dourado. No último dia 03 de junho, a peça esteve em cartaz no festival de teatro Trema!, no Recife. Não enfrentou problema algum, e foi um sucesso de público e crítica.

“O FIG é um espaço de liberdade e esperamos que essa polêmica não seja um estopim para a intolerância“, disse Marcelino Granja, enfatizando que a programação será mantida. Ele explicou à Folha de Pernambuco que a curadoria do festival é feita de forma pública e que é preciso respeitar a Constituição Federal, que preconiza a liberdade de pensamento e de expressão artística.

“Somos contra qualquer censura, ainda mais quando ficou muito claro que o prefeito não viu a peça e sequer prestou atenção ao fato de que a apresentação se daria num espaço restrito, com poucos lugares e às 23h, para um público adulto”, criticou.

O tiro do prefeito de Garanhuns pode ter saído pela culatra: vários espaços da cidade agora disputam entre si para receber a peça. A polêmica parece ter fortalecido a curiosidade do público e a visibilidade da causa trans.

Procurado pela reportagem através de sua assessoria de imprensa, Izaías Régis se pronunciou por meio de nota oficial: “Não temos nenhum preconceito relacionado à opção sexual (sic) de quem quer que seja. Mas, não podemos comungar com manifestações que ferem símbolos sagrados da fé cristã. Chegou a nosso conhecimento que o espetáculo deve ser apresentado no Sesc Garanhuns. Neste caso, não nos compete. Mas no Centro Cultural do município não haverá a disponibilidade”, diz o texto.

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