Com o fêmur quebrado desde ontem, a caminhoneira gaúcha Nahyra Schwanke, 88 anos, mantém uma lucidez invejável. Do alto de 60 anos de estrada, ela afirma categoricamente que a paralisação dos caminhões “é necessária”. Nahyra diz que o motorista que atualmente dirige seu Mercedes-Benz Axor 2536-S não fica com quase nada de dinheiro no fim de 300 quilômetros. “Descontando o combustível e a parte dele, sobram R$ 130 líquidos para mim. Você acha que tem cabimento?”

Filha única do dono de um armazém, Nahyra diz que precisou trabalhar muito cedo para sustentar a família.  “Eu acompanhei o trabalho do meu pai desde pequena, um dia passei a manobrar o caminhão e logo estava na estrada. Ele teve (mal de) Parkinson, perdeu a força para trabalhar”, conta ela. Ao mesmo tempo, engravidou e tornou-se mãe de uma menina quando era solteira. “Tinha de pagar a escola dela”, lembra.

Nahyra deixou a estrada há apenas dois anos, por causa de varizes pelo período tão longo trabalhando sentada. “Isso causou ulceração nas pernas”, diz ela, que não entregou os pontos. “Ainda hoje, vou junto com o motorista. Só não o acompanhei agora por causa da fratura na perna”, diz.

Descendente de alemães, loira de olhos azuis, Nahyra diz que cansou de ouvir na estrada comentários como “lugar de mulher é na cozinha”, mas nunca deu importância. Também nunca se casou. Baseada na cidade de Não Me Toque, a 300 km de Porto Alegre, ela disse em entrevista ao blog que chegava a viajar três mil quilômetros por mês, principalmente pelo Nordeste e Centro-Oeste do país, sob a proteção única de Nossa Senhora da Aparecida.

Blog – Como a senhora resolveu ser caminhoneira?

Nahyra Schwanke — Meu pai tinha um armazém, eu cresci acompanhando o trabalho dele. Um dia comecei a manobrar o caminhão e logo estava na estrada. Depois, ele sofreu de (mal de) Parkinson, perdeu a força para fazer o trabalho. Era só eu ali.

Blog – Que tipo de carga a senhora transportava?

Nahyra  — Carga seca: soja, milho, arroz. Mas às vezes, quando estava no nordeste, ia de uma cidade para outra puxando Coca-Cola, cerveja.

Blog – Quantas toneladas costumava transportar?

Nahyra  — A carreta tinha capacidade para 30 toneladas.

Blog – Que rotas fazia?

Nahyra  — Ah, eu viajava pelo Brasil todo. Ia muito para o Nordeste. E muitas vezes passava três, quatro meses lá. As transportadoras sempre me deram muita carga, graças a Deus nunca faltou trabalho. Ia de Fortaleza pra Recife, pra Salvador…

Blog – A senhora sabe trocar pneu de caminhão?

Nahyra  — Tinha que saber. Guardo um macaco até hoje debaixo da cama.

Blog – A senhora viajava de noite e de dia?

Nahyra  — Sim, mas sempre fui muito prudente. Planejava as viagens com o maior cuidado. Dependendo da hora em que eu saía, já sabia quando seria noite na estrada e em quais postos eu poderia parar para abastecer. E com o tempo, todo mundo já me conhecia na estrada.

Blog – Era muito paquerada?

Nahyra  — Ah, sempre tinha uns, mas eu não me interessava por homem só para me perturbar. Sempre estive mais ocupada em conseguir as coisas com o meu trabalho, o meu suor, o meu sacrifício.

Blog – A senhora se recorda de uma situação difícil na estrada?

Nahyra  — Uma vez cortaram a lona da carreta para levar azeite. O frentista me avisou. Os ladrões ficavam escondidos nos barrancos da serra, e quando a gente passava em marcha reduzida, por causa da subida, eles roubavam a carga.

Blog – A senhora está acompanhando o noticiário da greve dos caminhoneiros?

Nahyra  — Estou sim. Acho que eles estão cobertos de razão. O motorista que trabalha no meu caminhão atualmente roda 300 quilômetros e me dá, líquido, R$ 130. Você acha que tem cabimento? Eles precisam rever isso urgentemente. Nessa paralisação, todo mundo viu o quanto os caminhoneiros são importantes para o funcionamento de tudo.

Blog – Houve alguma outra paralisação durante todo esse tempo em que a senhora trabalhou na estrada?

Nahyra  — Dessa dimensão, e com essa repercussão, nunca.

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